quinta-feira, 31 de julho de 2014

Gaga soltando o gogó

Os tão famosos duetos de Tony Bennett estão cada vez mais inusitados. Uma grande proposta  para uma voz clássica como a do veterano cantor americano. Mas, realmente, não esperava a parceira como a princesa android do pop. Ter cantado com Lady Gaga, mais que uma surpresa, foi uma forma de mostrar que o talento da moça é maior que suas excentricidades. E parece que estou atrasado. Bennett já havia gravado 'The Lady is a Tramp' com Gaga em 2011. O meu lapso, entretanto, foi um tanto justificável. A gravação que fez com Amy Winehouse à época tomou conta de todo aquele álbum. Dessa vez eles apostam em 'Anything Goes'. Dá uma olhada!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

EXPOSIÇÃO EMARANHADO - TELAS DISPONÍVEIS

Como a minha Exposição foi de apenas uma noite (é a proposta), algumas telas ficaram disponíveis para venda e as divulgo aqui. São elas.

Sonhos dos poetas brasileiros – acrílica sobre tela – 150 x 150 cm – em caixa - Tomada de elementos que remontam ao real imaginário de um poeta, com foco na brasilidade, trazendo Iemanjá como tema central, essa tela me foi inspirada nas várias canções populares que já ouvi de cantores como a diva Maria Bethânia, intercalada por seus sonetos e poemas. O ponto alto dessa imagem é sonhar e viajar, assim como fazem os poetas, aqui, os brasileiros.
 

Baía de São José – acrílica sobre tela – 150 x 150 cm – em caixa - Umas das minhas telas que mais me extraiu emoções em busca da satisfação final. Não queria a perfeição técnica, mas aquela que o coração pede. Minha ideia foi retratar a Baía de São José de uma forma mais leve, sem tantos efeitos. Mas a minha mente não deixava! Foi pintada como se estivesse me transportado para as águas que banham a linda cidade de São José de Ribamar, com seus barcos e velas coloridas, sua profusão de gente e um colorido particular. Pintei todo o seu mar, primeiramente. Depois trouxe os elementos que se vê, em espátula e pincel. Para minha surpresa, a Baía de São José ficou mais original do que pensara. Devo dizer que aqui tem o toque das mãos artísticas do “santo marceneiro”, certamente.


Justitia – acrílica sobre tela – 120 x 120 cm – em caixa -  Não poderia deixar de lado uma homenagem à rainha de quem se dispõe a estudar com amor as ciências jurídicas, e um dos maiores desafios, sem dúvidas, para quem opera o Direito, é entender a concepção, a essência desta dama. A minha veio assim, com as vendas a caírem do rosto, não porque está pordendo o papel pensado pelos antigos filósofos, mas porque, para mim, deve enxergar bem para não claudicar. Melhor ainda quando rodeada de elementos a lhe cercarem.
Starr – acrílica sobre tela – 140 x 70 cm - em caixa - É uma forte influência do que tenho visto nas paredes de arte moderna pelo lugares que ando. O preto tomando conta da tela. O meu particular tratamento a esse estilo é dado com traços suaves, contrapondo-se. Para não fugir do meu perfil ‘expressionista’, trago um rosto de fortes traços que não deixam de lado, entretanto, a sua sutil naturalidade. Uma estrela como todas as outras, mas um tanto charmosa: “Starr”, com dois erres mesmo.


O Pensador Francês – acrílica sobre tela – 80 x 100 cm - em caixa - A linha de “O Pensador” é mais uma da série que resolvi denominar de “Os Turquesas”, por conta de seus rostos em tons azulados. Na verdade, se tivesse que nomear a série, chamaria de “Black”. É que, pelas minhas caminhadas na SP-Arte na Bienal e nas galerias do Village em Nova York, percebi a nova tendência dos artistas em usar o preto como cor majoritária. Encontrei fileiras de telas pretas chapadas. Gostei daquela ousadia, mas nunca pretendi fazer arte que parecesse inexata. Foi quando
pensei em trabalhar o preto em contraposição a traços delicados de figuras humanas. Escolhi traços enigmáticos e me fascinei.

A Realizadora – acrílica sobre tela – 80 x 100 cm – em caixa - Inspirado na mesma série de “Os Turquesas”, nasce como o completar, daquele que pensa, aquela que realiza. Em um mundo onde as mulheres tomam conta dos setores mais significantes, nada mais certo que homenageá-la como sendo as propulsoras do novo sistema. A expressão é de quem segue sempre em frente, sem desânimo, como os olhos abertos para o Universo e a vontade de se manter viva. Brevemente as “Realizadoras” serão a maioria em um mundo que cada vez mais as valorizam.
Ianga – acrílica sobre tela - 150 x 70 cm –  moldura canaleta de madeira -  Os grandes sambistas do Brasil invocam Dona Ivone Lara, parceira da imortal Jovelina Pérola Negra, como uma das maiores expressões do partido alto, do samba de roda e do samba tradicional. Ouvir Dona Ivone é passear na semente do ritmo sincopado que carrega a alegria do povo brasileiro. Pela harmonia dos traços e das cores dessa tela, dei-lhe o nome de uma canção da cantora que significa, no dialeto havaiano, “Deus é Gracioso”. Pode significar também “fiel”, “carinhoso” e “sensual”. Senti grande sintonia da tela com tudo isso.
 
 

Pajé – acrílica sobre tela – 80 x 120 cm - moldura canaleta de madeira - Uma tela nascida exatamente na noite da Natal. Tinha começado um dia antes e o que queria era algo completamente diferente desse resultado. Percebi que nunca tinha elaborado a imagem de Jesus Cristo. Para mim sempre foi difícil pintar as imagens de Cristo e de Maria, sua Mãe, pelo significado que têm para mim. Sinto-me muito tocado de forma que interfere sobremaneira no resultado. Mas encarei. No meio do trabalho, já com o esboço do rosto de Cristo sofrido e muito concentrado (afinal era véspera de Natal), um amigo brincalhão foi me visitar e disse; “quem é essa peste?”. Eu tomei um susto e ele saiu sorrindo. O curioso desse fato é que, sob essa figura permanece o rosto de Jesus com sua coroa de espinhos que com muita concentração consegui transformar nessa imagem identificada por mim depois como sendo um Pajé. Talvez pela presença enigmática de Jesus em mais um sincretismo de crenças...
 


Soul em Dois Tempos – acrílica sobre tela – 90 x 140 cm – Nunca escondi minha paixão pela cantora britânica Amy Winehouse. Na minha concepção, Amy trouxe para nossos tempos, mesmo que por tão pouco tempo, a voz enigmática das grandes divas clássicas da soul music. Ouvia Winehouse como um apaixonado e isso não poderia estar longe das minhas telas. Assim, embora minhas pinturas, muitas delas, tenham forte cunho regionalista, foi com os ouvidos chapados de Amy que meu coração vibrava. Esse foi muitas vezes o único “wine” que precisei. A tela é a única em sua homenagem, pintada no dia de sua morte, cheio de emoção.





Os Fortes – acrílica sobre tela – 70 x 100 cm - Aqui está mais uma da série de ”Os Turquesas”. O título da tela, muitos podem pensar, deve ter se originado dos seus cabelos enormes, aludindo à história bíblica de Sanção. Pode ser. Como dizia o grande Picasso, “depois de pronta, a tela não mais me pertence”... Ela faz parte da técnica que desenvolvi para harmonizar o uso exagerado do preto com traços mais suaves como tenho feito com telas dessa linha. Aqui, depois de algumas vezes sozinhos, esses personagens vieram juntos, cheios de enigmas e segredos, mas bem espertos. Talvez porque juntos são bem mais “fortes”.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O Vendedor de Leques

Publiquei no Instagram uma foto que particulamente achei linda, clicada pelas minhas andanças pela Colômbia. Mas a foto ganhou mais paixões! Ao dar um título a ela, a grande amiga virtual Danielle Giannini se encantou tanto com o clique quanto com o título que dei: "O Vendedor de Leques". Pura inspiração. Eu também pensara assim, mas foi ela, a Daniele que logo se propôs, muito gentil e delicadamente, como costuma ser, a escrever uma crônica. Eis aqui as emocionantes palavras. No título, o link direto para o blog da Dani.

O vendedor de leques *

*Título original de autoria do meu amigo virtual Flávio Assub.

Estavam lá os leques coloridos, estampa fina, todos minuciosamente dispostos sobre o chão rude da rua suja e pisada. Eram leques lindos, confeccionados no papel arroz, feitos a mão, mão que o tempo não perverteu ao desuso, mão hábil. Chamavam a atenção pelas cores vivas, assim gratuitas, na calçada do viaduto movimentado. Olhares recebiam aos montes, entretanto ninguém parava, nem um único transeunte estava disposto a sacrificar um segundo do seu tempo esgotado para apreciar tamanha riqueza. Não eram os únicos leques no viaduto; havia outro rapaz mais a frente, com um pano estendido no chão lotado de um amontoado de guarda-chuvas, baterias para celulares, massageadores portáteis e leques. Eram leques todos iguais, coloridos também, de uma estampa chamativa impressa no plástico; não tinha nem como o produto atrair alguém, misturado que estava aos demais artigos, feio e sem graça. Eram leques e nada mais. Leques sem história. Leques que saíram da máquina direto para a embalagem. Leques que estavam identificados pelo papel escrito em letras medonhas: “Abano em promoção – 3 por 10”. Por isso, e só por isso, um tanto considerável de gente, mulheres na maioria, parou o comprou. Estava calor e precisavam se abanar. Não durou muito o estoque do rapaz; fez um dinheiro bom naquela tarde. Vendeu leques como quem traz a salvação. Depois disso ninguém mais parou ali, ninguém se interessou pelos leques mais a frente, na mesma calçada, encantadores. Não que tivesse acabado o calor, não, estava abafado. O vendedor de leques coloridos, findo o dia, recolheu quase que com carinho sua mercadoria, nenhuma venda. Resignou-se, apenas lamentou não serem leques dignos de cumprirem sua tarefa. Homem de idade avançada, não velho, mas manso no pensar, o vendedor de leques recolheu-se ele também ao casarão antigo onde vivia desde a mocidade com seus pais, que lhe ensinaram a tirar o sustento das próprias mãos. Entrou pelo corredor estreito sem perceber o leque branco que caiu na soleira da porta. Nem o vento quis levar o leque em respeito a tanta beleza. Foi uma mulher que passou, viu o desenho de linhas finas e parou. Pegou o leque nas mãos. Quem teria perdido aquela joia?  Ninguém por perto. Sem resistir, seguiu com o leque em punhos. Agora era dela, e o exibia orgulhosa, para atrair mesmo a inveja dos outros; sabia o quanto era valioso o seu achado. Por pouco não sentiu o cheiro das mãos do vendedor de leques, por bem pouco. Sim, o cheiro dele estava lá, quase apagado; a delicadeza dele estava lá, quase ignorada; o pensamento dele estava lá, quase inaudível; a história daquele homem estava em cada grão de papel daquele leque, para sempre. A mulher quase se deu conta de que estava ali em suas mãos toda a razão de viver de um homem, sua alma completa e despreparada.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Pincel que baila ao som de Ravel

Devo ao meu amigo e guru Geetesh alumas técnicas de pinturas que na verdade não passam de meios sensoriais da arte. Em uma delas deixamos o pincel literalmente bailar. Para esta tela ouvi 15 vezes, no mínimo, o Bolero de Ravel para que pudesse deixar os pinceis dançarem, com a direção que tinha em minhas emoções. É por isso que se chama simplesmente "Ravel".
Dedico ao meu grande amigo Ézio Victor Bahia.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A Nokia perdeu!

Veja essa! O videozinho "inocente" que pode fazer a Nokia pagar milhões em multa em processos que já tramitam na Justiça de SP. Vários cosumidores se sentiram lesados pelo sentimento de piedade ao garoto que supostamente procura um amor que... encontrou em uma balada mas perdeu o número de telefone que ela lhe dara num papel. O vídeo, segundo as denúnias ao Conar de SP, nada mais é que parte de uma peça publicitária para divulgar um lançamento da Nokia. Uma propaganda viral. O rapaz usaria os "consumidores" condoídos para vender mais celulares. Até onde vai as lesões aos pobres e vulneráveis consumidores, hein?!...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Inventa!


Qualquer invenção é um ato de responsabilidade. Trato das coisas novas criadas no campo da ciência, das artes ou da tecnologia, há de se imputar obrigações iguais a qualquer que seja o sentido do ato de inventar, sendo ela boa ou ruim. 
Na verdade, trato dos elementos que vão nascendo e se ingerindo na vivência como que planejada desde a concepção divina de Adão e Eva, e não saem mais sob pena de se acabar com a própria existência. Ingrediente da Obra que teria o seu tempo certo para existir assim como foi a Construção descrita no Livro Genesis. É como se ainda estivéssemos desenvolvendo o que as Escrituras apenas começaram a descrever.
Não, não é filosofia e muito menos teologia! Note bem. Vamos do final ao começo. Você pensa que eu poderia estar escrevendo este texto em uma Olivetti com pedal ou uma Swissa, modelo Piccola (300 euros pela raridade)? Sim, poderia, desde que eu quisesse muito homenagear o brilhante Mário de Andrade quando deixou de escrever à tinta crua para usar um novo apetrecho até então surreal que fez mudar até a própria poesia. O artista brasileiro, por conta da máquina de escrever, tornou seus escritos mais impessoais porque deixou de dar, através do manuscrito, a sua personalidade de maneira mais evidente, tornando-se mais seco e de perfil objetivo. O que não aconteceu, por exemplo, com Henry James que passou então a ditar seus textos a um subordinado, tendo mais tempo e disposição para se inspirar.
Como que, de certo, querendo homenagear um ou outro célebre poeta, adeptos da evolução, eu poderia sim estar me valendo de uma novidade do mercado, e aí o caríssimo leitor poderia imaginar zilhões de possibilidades. Poderia estar escrevendo este texto em um PC, um note, um smart, um tablet e, quem sabe, conhecendo o novo aparelho que escreve com as ondas cerebrais. Não conhece? Eu também não, pelo menos por enquanto…
Lembro do meu pai, quando eu, ainda criança, ouvia sinais de ondas chiando em um aparelho enorme, do tamanho de uma caixa de som, “linkados” por um microfone esquisito em que ele repetia “CQDK, CQDK, em QRP, na escuta?” Era um saudosíssimo radioamador que servia para se relacionar mundialmente e trocar ideias, culturas, informações. Alguém conhece algo parecido nos dias de hoje? Bom, meu pai ainda guarda o seu aparelho, que já não era mais a “caixa de som” porque, assim como tudo evolui, o aparelho também evoluíra e ele trocara por um do tamanho de um tijolo, achando fantástico que a frequência poderia ser acompanhada por números digitais.
Certamente, naquela época, muitos poderiam viver sem o que era considerado um artigo de luxo, semente do que hoje é a rede mundial de computadores, agora ninguém, absolutamente ninguém, consegue se relacionar, sequer com o mais primitivo dos instintos, se não tiver, pelo menos em sua rua em qualquer Lan House, um computador conectado à internet. Como é que você iria dizer à sua mãe, que mora em Chapadinha, que o seu Décimo Terceiro não caiu na conta e que esse ano não vai conhecer seu novo tablet? Aliás, como é que sua mãe poderia saber o que é um tablet? Inimaginável que você escreva uma carta em papel almaço (lembra?) para esta função, depois cole um selo em um envelope de bordas verde-amarelas e vá até uma caixa de correio na esquina (ainda existem?). Sem internet, hoje, você não vive! Não tente se iludir!
Vamos avançar na involução. O telefone celular – que não sei por qual razão adquiriu esse nome tão feio se até em Portugal é mais prudente se chamar de telemóvel, honrando a praticidade do objeto quando por aqui ninguém entende o que, realmente, "célula" tem a ver com telefonia – , me lembro bem, vi nas mãos de uma madame que passeava na Faria Lima em seu Mercedes-Benz guiado por um motorista de uniforme. Era um pequeno bloco que a mão da senhora não conseguia abarcar e uma antena que só não saltava pela janela porque madame em São Paulo jamais anda de janelas abertas. “Essa deve ser mulher de bicheiro”, pensei. Hoje não se joga mais no bicho porque existe o Poker Party e os celulares servem até mesmo como telefone. Impressionante!
Imaginemos que, em um rompante saramaguiano, o mundo ficasse "cego" de celulares. Se um vírus tomassem conta dos aparelhos – sim, vírus há muito não é mais um “privilégio” dos animais – e todas as linhas de telefonia móvel parassem de funcionar. Vamos nos poupar de uma visão macro. As redes de telefonia iriam ter um colapso financeiro tão grande adeus aos cabelos rebeldes de Neymar na tela... ninguém, por exemplo, poderia imaginar que antes de sair de casa, você poderia deixar as calças justificadamente e sair só de cuecas mas jamais conseguiria esquecer do iPhone. Passou a ser instintivo.
Vamos aquém. Hoje você não precisa sair efetivamente de casa para ficar desesperado se o seu aparelho celular não estiver à sua mão. Pode ser que você precise ligar para o seu irmão que está no quarto ao lado para perguntar que barulho era aquele, em uma madrugada qualquer, na porta da frente de casa, se tremendo de medo, quando há algum tempo atrás, você só se cobriria com o cobertor e rezava.
Imagine, então, se Graham Bell (quem?) não tivesse tido várias noites de insônia e criado uma das maiores invenções do século passado, o bisavô do brinquedo móvel? Tudo bem que o telefone fixo virou um apêndice doméstico, mas você certamente não poderia ter vivido sem ele. Primeiro porque sem um, não viria o outro, e mais que isso, sinceramente eu não consigo conceber, na minha história de vida colegial, a gatinha da 3ª “A” dizendo pra mim “desliga você primeiro, vai”.
Mas não é só ao que se poderia chamar de futilidade inventada – até que fosse apresentado no Japão e o Jornal Nacional não noticiasse, porque no ano seguinte já passa, incondicionalmente, a ser necessidade – que o mundo se dobra. Houve invenções cruciais para que o mundo pudesse realmente existir até hoje. Como você extrairia o seu terceiro molar sem anestesia? Lógico que não o faria. E isso, com certeza, teria impacto no desenvolvimento natural da espécie. A seleção de Darwin não iria reconhecer a desimportância do dente e acabaríamos por ter mais de quarenta dentes na boca dentro de 100 anos, o que faria do Ronaldo fenômeno um verdadeiro “banguela”. Meu vizinho, grande pessoa, iria morrer por causa de uma unha encravada, coitado!…
Ponha na cabeça (ou no seu pendrive)! O mundo existe até que se crie algo e deixará de existir, literalmente, se algo que lhe foi criado se torne extinto. Mas calma! O desaparecimento de uma espécie animal é trilhões de vezes menos relevante do que o possível bug de artefatos “Louis Vuitton”. Não se cogita a existência do que somos hoje sem Wilhelm Schickard, que construiu a primeira calculadora mecânica em 1623; James Watt, que desenvolveu a máquina a vapor em 1765; Samuel Morse, que criou e registrou a patente do telégrafo em 1837; Alexander Graham Bell, que inventou o telefone em 1876 (lembrou?); Thomas Alva Edison e Joseph Swan, que inventaram a lâmpada elétrica em 1879; Karl Bens, que desenvolveu o primeiro veículo com motor à gasolina em 1885.
E não parou aí. Os irmãos Lumière, que criaram o cinematógrafo, antecedente do cinema em 1895 (Graças a Deus!); Santos Dumont, brasileiro, que realizou o primeiro voo com o 14 bis, o primeiro avião (que franceses que nada!) em 1906; da rede Arpanet, que com objetivos militares, daria origem à Internet em 1969; do Pong, primeiro videogame, que foi lançado em 1972 (se você conheceu, não deixe seu filho saber pra não rir da sua cara), Philips e Sony (as empresas), que lançaram o CD-Rom em 1984 (o que é estranho é que era chique ganhar o CD do Leandro e Leonardo. Hoje é chique ter um vinil da Lady Gaga!); Tim Berners-Lee, o deus da Internet, criada por ele em 1990…
Como é que eu sei isso tudo? Google! Em tempos de WikLeaks, conhecer muito das coisas pode ser um problema sério… Se é um personagem da Disney?! Não, mas é questão de pouco tempo para que o sítio de nome engraçadinho de bonequinho da Disney seja mais necessário que Orlando e o seu Mickey Mouse…

terça-feira, 17 de julho de 2012

A Cena do Telhado de Gabriela

Quem assiste à nova versão de Gabriela, não aguenta a espera pela cena iconográfica no novo folhetim. Naquele tempo, uma pipa, um vestidinho, um telhado e Sônia Braga fez história como ‘Gabriela’, na primeira adaptação do romance de Jorge Amado para a TV, em 1975. Como será que virá com Juliana Paes?!

Aliás, Juliana Paes, como foi devidamente alardeado, gravou no começo da semana a nova versão da famosa sequência. A previsão é de que vá ao ar no dia 24. Certamente não trará o mesmo charme que só mesmo Braga, aliás, dá à todo o romance. Esperemos...

Elza Soares em 'Paciência'

Não se trata de um lançamento. A gravação é de 2009, mas a voz arregaçada na melodia macia de Lenine em "Paciência" merece o resgate e os apalusos de quem une todos os caminhos da música do país em um só, e descobre que a riqueza musical do Brasil é capaz de feitos extraordinários como tornar quase plumas o que seria - digamos - sons harmônicos de gralha. Basta ter um pouco de 'paciência'...
Pontos para os acordes super bem trabalhados da produção de W Negro.
A linda interpretação está no filme emocionante "Estamos Juntos" de Toni Venturi. Aliás, você já assistiu ao filme, não? Excelente!


Ouça no link:

Elza Soares - Paciência

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Contrabando de Justiça


O Presidente do Paraguai cai. Num processo “constitucional” o Parlamento decretou o impeacheament de Fernando Lugo (Fernando?) que foi substituído pelo seu vice. O Poder Judiciário é (ou será, como se prevê) chamado. “Senhor Poder, foi correto o que fizeram com o homem eleito pelo povo? Estamos em crise... Solucione!”.

Foi para isso que o Judiciário nasceu, em linguagem não tanto rasteira: para solucionar crises. E que solucione de forma soberana! Se o Presidente do Paraguai foi inconstitucionalmente deposto de seu cargo, Ele, o Poder Judiciário daquele país tem a obrigação soberana de reintegrá-lo ao cargo, e mais que isso, com altivez.

Um Poder em que a sua existência é a solução natural de crises sociais e políticas – como a que vemos tão perto – não pode, não deve jamais se conceber que possa conviver com a crise que lida e dissolve. O tom inflexível dessa afirmativa não é uma diretriz, é um imperativo. Judiciário não existe com crise. Quando se encontra com uma crise, se despe da sua soberania para que possa solucionar E enquanto isso não se concretiza, não se pode erguer-se perante uma sociedade para a exercer a função para a qual nasceu de forma imperante.

E como se mantém a integra de um “Judiciário” sem ter que tirar a roupa em público para curar os seus traumas? Muito, mas muito simples: constrói-se roupas decentes. Busca-se bons ‘constureiros’. Fazer um Poder límpido é a chave para que se evite a crise e se exerça o papel que a sociedade espera de um Estado organizado. Meu Deus, ter um Poder Judiciário transparente e apropriado é simplesmente basilar numa agremiação de gente!

É possível? Lógico que sim! Não me venha com aquela conversa chata e reiterada de que a raiz federativa da nação, o país, o conceito de Pátria brasileira não consegue mais se desalinhar com os tortos costumes coloniais, a civilidade tupiniquim e com uma sociedade despojada do senso de moral e justiça. Pode sim e deve! Tudo muda! Nosso país vive uma fase evolutiva fantástica e ficar com a tosca ideia de que somos colônias terceiro-mundistas soa tão irritante!; isso é procurar desculpas para nossas ignorâncias.

Desculpe-me a todos que atinjo que essas palavras porque pecaram nas suas condutas jurisdicionais e/ou jurisdicionais-administrativas, mas a cova do bem, cava o bom defunto. Quem não busca saber onde pisa, mesmo sabendo que a sociedade não é mais a mesma (ou pelo menos tenta não ser); que pensa que tudo que público é apenas um meio de se ter um naco de ações abertas no mercado de capitais, certamente penam em alguma alcova viva que – sim – já tem nascido, e promete se consolidar. Eu acredito!

No Paraguai, estão, pois, esperando a palavra do Brasil para chancelar a legitimidade da retirada do presidente Paraguaio.  País que se preze não espera palavras de quem quer que seja, porque existe Poder para isso. A não ser que o Poder que tenha para tanto não seja legítimo, um Poder "fake", comprado em uma baquinha na Ponte da Amizade....

sábado, 5 de maio de 2012

Eu quero filmes!

Resolveu assistir à uns bons filmes neste fim-de-semana e ficou meio perdido na hora de escolher?
Aí vão duas boas dicas minhas: Alexandria e Esquizofrenia


Eu sempre gosto quando o cinema se mistura com História, e no caso de Alexandria além de termos um roteiro muito bem explicado, ele nos prende por algumas peculiaridades. O filme prima pela sua qualidade narrativa de imagens, focando-se em duas ideias.
Um dos focos é a astrônoma Hipatida, lindamente interpretada por Raquel Weisz. Hipátida é grande estudiosa das órbitas planetárias; o modelo ptolomaico, onde a Terra seria o centro do universo e oito esferas, ou “céus”, que representariam as órbitas de corpos celestes como a Lua e o Sol indicavam a trajetória dos astros em torno do nosso planeta. No entanto o modelo ptolomaico não satisfazia a certas indagações que aparecem ao longo do filme: a Terra estaria ou não em movimento?

Outro ponto crucial que sustenta de forma bem mais incisiva o roteiro, sem desalinhar-se com a personagem de Weisz, são os conflitos entre pagãos e cristãos, buscando passar uma mensagem de união esquecida pela humanidade.
Pois bem, eis aí os alicerces que vai direcionar a história e que se agregam de forma torporosa. Até que ponto a Filosofia da nossa personagem pode ser um insulto à crenças da época? Não seria uma contribuição sem igual esses estudos para a nossa evolução científica? Até onde a obssessão pelo poder poder embaralhar isso tudo?
São questionamnetos que se podem fazer dutrante o filme, mas o que mais me intriga no momento é por que esse filme, de um diretor qualificado como Alejandro Anemábar, não foi lançado nas salas de cinams do país e só o foi dois anos depois em DVD e Blu-Ray. Um filme pedagógico como este seria uma contribuição das salas de cinemas às carentes salas de aulas do país.

Título original: Ágora
Direção: Alejandro Amenábar
Produção: Álvaro Augustín, Fernando Bovaira, Simón de Santiago, José Luis Escolar e Jaime Ortiz de Artiñano
Gênero: Drama
Ano 2009


Esquizofrenia nos arrebata no segundo take. O filme não informa se Keane, o personagem principal(íssimo)  - e título original do filme - já tinha problemas mentais, mas suas primeiras falas mostra a busca desesperada por sua filha que supostamente teria perdido em uma estação de trem. Vemos logo ali um Keane em estado esquizofrenico avançado. E o decorrer da película, com a camêra exageradamente em seu perfil, em close quase o filme inteiro, nos mostra o verdadeiro horror de viver uma doença como essa: discursos, pensamentos e atos desorganizados, delírios sobre o suposto sequestrador, que pode estar em toda parte.
Como um ritual, que tem algo de seu comportamento doentio, Keane volta todos os dias ao lugar em que Sophie, o nome da sua filha, haveria sumido e procura, ali, reviver a cena a todo custo, reconstituindo-a passo a passo.
A situação de Keane se agrava, já que está intimamente ligada ao consumo de álccol e cocaína, o que aumenta, de forma visível, os delírios do protagonista.
Mas algo inesperado vai acontecer. A ligação casual de Keane com uma mulher que tem uma filha da mesma idade da sua, o faz ter um paixão inverossímel. Nesse momento não se sabe se é o instinto de carência e sofrimento que o faz seguí-la como que por um certo amor repentino.
O traço bom desse momento narrativo é que podemos ver um Keane sóbrio, sem crises, longe das drogas. Isso fica ainda mais evidente quando ele tem que cuidar da pequena por dois dias, já que sua mãe simplesmente sumiu.
O problema é exatamente esse: Keane é um esquizofrênico, tomando conta sozinho, de uma criança da idade de sua filha sequestrada. O que isso pode refletir na cabeça de um transtornado mental? Como haverá controle?
Minha maior dúvida, na verdade, é como o ator Damien Lewis passou tão despercebido dos focos com uma atuação tão real e grandiosa.
Prepare-se para um misto de sofrimento e consternação dentro da mente de um esquizofrênico. Prepare-se para se confundir entre o real e o imaginário.

Título Original: Keane
Estado: Em DVD
Gênero:
Drama, Suspense
Direção e Roteiro:
Lodge Kerrigan
País de Origem: Estados Unidos da América
Estreia no Brasil: 2004
Estreia Mundial: 6 de Janeiro de 2004
Duração: 100 minutos

terça-feira, 3 de abril de 2012

O que o Village tem?

(Estive  com amigos no último verão de Nova Iorque e escrevi, em um guardanapo, uma pequena crônica sobre o Village em uma aventura desgarrada nesse distrito de Manhattan que cairia no esquecimento se eu não encontrasse o tal guardanapo jogado em uma mala de viagens. Ei-la aqui! E nunca é tarde para publicar. Aproveitem!)


Nova Iorque é, de fato, uma cidade inexplicável. Nunca entendi, por exemplo, por que John Lennon, à frente de seu tempo, cheio de atitude, morava tão “trivialmente” na Quinta Avenida, existindo lugares como o Village. Esse distrito periférico de Manhattan seria a cara de Lennon se talvez Yoko Ono (que mora lá até hoje) não tivesse aquele natural desejo feminino pela Quinta. Pelo menos se presume.

Aquele movimento high social capital, não condiz, de fato, com o ar poético que inspira os mais aflorados sentimentalmente, sentando em qualquer banco de praça desse pacato e romântico lugar, pertinho do SoHo, ao mesmo tempo em que, sem se esquivar do traço de qualquer cidade cosmopolita, consegue se mostrar inusitado em curiosos momentos. E não seria esse um prato cheio para os poetas?

Sentei em um charmoso restaurante italiano, que prefiro não chamar de café ou bistrô porque, além de não ter essa qualificação oficial, se assim o fizesse não estaria no Village. Ali, as pessoas, nem sendo tão bonitas, passam cheias de estilo próprio; nem tão cheias de grifes, todas desfilam, como que em uma passarela que intercorre todos os entremeios de ruas tranquilas e delgadas avenidas.

O Bar Pitti foi a minha escolha, e logo ao sentar, o garçom me aponta o cardápio de pratos, um quadro de giz elegantemente pregado na parede no pequeno salão que, para enxergar, tem-se que esticar o pescoço sutilmente para não se parecer enxerido na mesa alheia. Ali me senti de verdade em Nova Iorque. A que muitas vezes quer nos se revelar e ainda não consegue, nem mesmo com o esforço de apaixonados como o cineasta Woody Allen que já passeia por outros ares.

O Village é alegre. E eu ainda nem tinha tomado minha primeira taça de vinho. É tranquilo, e ainda nem tinha tomado a minha décima. Pode-se descobrir o perfil agitado do lugar ou a sua serenidade, estando com um grupo de amigos ou mesmo solitário, apenas observando, como eu, e isso foi o que se tornou o grande trunfo para mim naquele momento.
 
Mas qual o motivo pelo que nunca me fiz perceber o Village assim?  Por ali já passei algumas vezes mas somente o “reencontrei” quando estava sozinho. E foi quando tive as melhores visões que Manhattan pode proporcionar.

Um pai com duas crianças andava apressado carregando... uma jarra de água?!... e um saco de gelo?!... 

Deixei de querer entender melhor aquilo quando uma jovem típica americana, seios avantajados e bochechas rosadas, um tanto acima de seu peso, mascando um chiclete, com um fone no ouvido passou por mim levando à tiracolo o seu namoradinho, aparentemente mais velho, estilo modelo, músculos definidos à mostra, óculos Rayban que, se talvez não fosse a diferença entre os dois e o acessório que carregava, passaria despercebido em meio a tantos tipos iguais que por ali andam: uma bolsa da famosa marca Burberry no seu ombro. Seria a nova tendência dos homens em usar bolsas de mulheres? Errado. Há três passos atrás, uma senhora deu um gritinho que, dali, consegui ouvir: “Wait for me daughter!”.  Bingo! O descolado rapaz, com toda pinta de galã, levava gentilmente e em bom estilo a bolsa da sua sogra. O Village não estava lançando tendência em minha frente e o amor é lindo. Será?!

Já não queria mais dar conta das vidas que passavam sobre a minha mesa, embora aquilo estivesse me divertindo mais que qualquer musical clichê da Broadway. Minha massa bolonhesa acabara de chegar e duas goladas do bom vinho poderiam me fazer concentrar nela... ou não. Minha última sorvida do que restou do vinho não foi suficiente para que eu deixasse de ver uma “vovó” virando o seu prato inteiro de espaguete no da sua amiga, enquanto falava vidrada em seu iPhone. Mas o que estaria acontecendo ali?

“Yeeeeess, dear, I'm going now!”.  Que alegria! A vovó simplesmente desistiu de saborear o seu prato para encontrar com um "dear", enquanto a coleguinha, atônita, via-se em frente a um inesperado prato de macarrão, depois de já ter se empanturrado de seu risoto, .

Um rastafári ruivo?! Já devo estar bêbado... Esperou um pouco por alguém ali, olhando para os lados, e, dando a mão para o seu companheiro, saíram apressados. Normal em Manhattan, não fosse o ruivo, trajando calça de colegial, suspensório, sapato de vinil vermelho e uma gravata borboleta, com tatuagens até às pálpebras, namorar um nerd gordinho, cabelo repartido, de camisa engomadinha e de óculos pretos redondos três vezes maior que o seu rosto que, inclusive, deixou-os cair, o que causou um certo desconforto entre o casal que teve que se separar por instantes para que o nerd voltasse em busca do objeto enquanto o ruivo aguardava, irritadinho.

O que fazem os cronistas longe daquele quarteirão? Não seria ali um lugar ideal para um roteirista? Será que ali já se inspiraram com a imagem maravilhosa de um velhinho de seus oitenta anos em roupa de academia, boné, fone no ouvido e camelback, montado em um patins com o qual fazia piruetas na esquina, quase atropelando a senhora que, por preocaução, já trazia seu poodle na mão?


E aquele outro vovô com um tênis de uma brancura polar, que deixou cair seu headphone e num golpe só pegou o acessório do chão, e sem perder as passadas, foi arrumando com destreza o seu aparelho de caminhada? Ah, eu adoro os vovôs e as vovós, e os do Village são os mais legais!

“What te fuck...”. Lembram da Precisosa do aclamado filme?! Não era ela, mas uma cópia e se zangou com o vovô de tênis branco que quando fez o brusco movimento com o seu headphone nas mãos, apressado que estava, quase derruba a sua sacola de chocolates. Sim, ela comia chocolates em uma sacola.

Pedi a conta, triste que o dia já estava terminando. Cruzando a rua, saindo do bar, e as pessoas que trabalham em uma pizzaria movimentada dali, serviam seus clientes no meio da calçada, como em uma festa. Passei pelo meio do aglomerado para me sentir convidado naquilo. Antes de deixar o lugar, quase perdi a visão que fecharia minha aventura com maestria. Na parte interna da pizzaria, deu para ver a vovó do iPhone sentada em uma mesa, provavelmente com seu "dear" e com um motivo muito forte para trocar o macarrão do Pitti por uma pizza do bairro.

Terei que voltar ao Village...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Mole Poblano: a apreciada iguaria mexicana que me nocalteou!

Italo Calvino, o célebre literário italiano, escreveu em uma obra que, provavelmente, a comida mexicana, pelos elaborados sabores, tinha origem obscura.

Talvez, os indígenas ocultavam o gosto da carne, proveniente dos sacrifícios humanos, adereçando-a com muitas especiarias, para oultar seu verdadeiro gosto. A verdade fica para os historiadores, mas o certo é, que a gastronomia mexicana é rica, elaborada e carregada de sabores.

É também, o resultado de uma estranha mestiçagem, principalmente, com a comida espanhola, com seus ingredientes básicos no milho, adorado pelos indígenas, o chilli, (pimentas regionais secas), com mais de 100 variedades dignificando os sabores, e o feijão, ingredientes que se encontra sob diferentes formas em toda comida que por lá se prepara.

A comida é para muitos mexicanos o melhor momento do dia e se compõe de soupa seca, uma espécie de caldo ralo muito temperado, com arroz; um segundo prato que pode ser carne, peixe ou frango, sobremesa e café.

Não se pode, de jeito nenhum, abandonar o México sem ter experimentado o verdadeiro prato mexicano, o mole poblano, o prato bandeira da cozinha mexicana que é, na verdade, a base para acompanhar frango, carne de porco, de cordeiro ou mesmo de boi. Dizem que a receita foi inventada pela freira de um convento que, querendo agradar ao bispo, misturou mais de 30 ingredientes, impressionando-o com o delicioso molho. A preparação é devagar e trabalhosa por ter diversas etapas onde se vão misturando todos os ingredientes que vai até uma pequena barra de chocolate meio-amargo, à amanedoim, tomates, amêndoas, passas, alhos, pimentao, canela, pão, banana etc. E foi ele, exatamente o Mole Poblano o meu vilão...

Já viajei para alguns lugares e experimento realmente de tudo. Sou acostumado a comidas codimentadas e gosto do sabor salgado e picante, mas a culinária mexicana, inusitadamente e literalmente, me derrubou. Fiquei acamado no quarto do hotel por um dia inteiro com sintomas que é melhor não comentar...

Mas eu não costumo deixar o inimigo rindo de mim e preparei a minha doce (ou apimentada) vingança. Fui para dentro da cozinha do chef Jésus García (De Cortés), a seu convite, para aprender a fazer o prato. E, mesmo ainda convalescendo, enfiei tudo goela abaixo com muita vontade! É inexplicavelmente bom demais aquilo!

Bom, sobre o mal que me acometeu, você saberá se lhe acometerá também, assistindo esse vídeo que preparei onde irá aprender a fazer o Mole e, se tiver coragem, comer. Que Montezuma, pois, lhe seja bonzinho... Quem é Montezuma? Assista o vídeo!
















Aprendi a fazer o Mole Poblano


                                                                                
















Pequeno domentário sobre o Mole

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Você já morreu hoje?

Minha leitura atual é um tanto pitoresca como é o seu alvo-mote: Ozzy Osbourne.
Não é preciso muitas páginas de "Eu Sou Ozzi" para descobrir em John Osbourne, roqueiro e vocalista heavy metal, uma das figuras mais bizarras da face da Terra. Talvez seja por isso que a leitura prende tanto - porque vemos um pouco de nós em Ozzy ou porque não nos vemos em nada dele, o que já penso ser mais improvável.
De uma forma ou de outra, o mundo maluco do cantor fascina não somente pelas suas maluquices, mas pela forma inteligente como  levava sua vida. Dia desses, Lucas, um primo meu, escreveu algo anticonvencional para uma criança de 10 anos, o que causou certo alvoroço na família. Postou em sua página do facebook: "para quê tanto orgulho se o futuro é a morte?".
Embora não pareça, acho os dois fatos aqui descritos muito próximos. A morte é nossa companheira cotidiana, mesmo que estejamos na inocência de nossa dezena de anos completada, que o diga o jovem Lucas. Para Osbourne, morrer era uma forma de viver. Encontrou a morte em tudo que viveu e brincava com ela. Não porque a desejava, mas porque pensava que a única forma de se desprender do fim ou de encará-lo com certo approach seria lidando bem com ele. Saber que temos um futuro certo, e que esse futuro assim o é para todos, sem nenhuma distinção, nos ajuda a encarar os desmandos do ser humano e suas vicissitudes atuais de forma realista.
E qual a vantagem disso? Vive-se melhor porque olhamos o ser humano de forma compadecida e não nos deixamos mais espantar quando um Ozzy pintar na nossa frente, assim todo tatuado como que a expressão da falta de amor. E vamos aprender, primeiro, que nem tudo que parece é e que o Ozzy, embora todo tatuado e bizarro, não é tão espinhoso quanto pensamos. Eis a nossa primeira queda: deixamo-nos levar por tudo que tão-somente nos parece.
Quando aprendemos a começar a viver lá na escola primária, nos ensinam que SER é a mais importante virtude, e, mesmo que nosso colegial esteja um tanto longe, vemos como se tem de lado, até hoje, esses objetivos espirituais.
Mas já tivemos tempo de sabermos que a vida nos prega peças lindas para que, nem que seja à força, descobrirmos que o mais simples sentido humano nos indica uma direção: SER... mais humano, solidário, verdadeiro, amigo, filho, pai, companheiro, mais pé-no-chão, mais bondoso, mais humilde, mais caloroso...
Aprendemos a ser mais gente, pois. Vamos descobrindo que a morte é companheira porque algo fantástico está guardado para nós e isso pode nos ser entregue a qualquer momento. Caso esqueçamos que viver nada mais é que uma forma muito grandiosa e iluminada de morrer, vamos vivendo mortos sem a consciência de que nosso futuro pode ser lindo; de que a consciência da morte é o nosso mais mais novo passaporte para a felicidade.
Eu tenho aprendido bem essa lição. Enquanto a morte não vem, eu morro todo dia. Mas morro com a certeza de que em uma hora (ou no máximo uma alvorada) estarei ressuscitando. Procure a morte dentro de você. É assim - acredite - que você vai aprender a viver...

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

E não é que tem uma pitada da Amy em sua afilhada?

No último dia 06 de março de 2011 tivemos o lançamento do novo single da aposta da diva Amy Winehouse, Dionne Bromfield, 'Yeah Right', apresentando Diggy Simmons (o filho do Rev. Run to Run DMC). O álbum de estréia da jovem contou com uma coleção de faixas clássicas da Motown na introdução que muito  agradou quem ouviu, tendo este sido lançado em 2009 pela Lioness Records, um selo criado por sua madrinha.


Falando sobre sua invasão no mundo da música, Dionne disse: "Todo mundo me dizia que eu poderia cantar desde meus dez anos de idade, mas eu era tão tímida que não acreditava. Então, a Amy, que certa noite estava perto da minha casa, ouviu-me e disse: 'menina, é verdade,  você pode cantar". A partir daí eu fiquei mais confiante. "


'Good For The Soul', primeiro álbum da 'menina' é uma coleção de material original escrito com alguns dos melhores nomes da indústria musical, incluindo Duffy, com colaboração de Steve Booker e Toby Gadd, conhecido por seu trabalho com Beyonce e Rihanna".


Trilhando um caminho explicitamente pop, Dionne segue rumos diferentes da madrinha, mas é muito bom ver um pouquinho de Amy Winehouse em sua afilhada. Veja! 


sábado, 10 de dezembro de 2011

Lioness: Hidden Treasures - um ábum vivo

Falar de Amy Winehouse não me é apropriado. Confesso que sou um tanto chato com minhas lamúrias de apaixonado. Sempre fui desde que a ouvi pela primeira vez e minha história de eloquências é, inclusive, um tanto conhecida. Depois de sua morte, evitei tratar. Penso que ela merece o descanço que sempre precisava aqui. Relutei, mas não consegui - vim falar de "Lioness: Hidden Treasures".

A história de edições post mortem nem sempre é justa para com aqueles que se foram mas se há exceção digna e revelante é o álbum póstumo da diva (juro!). Isso nos é ainda mais convicente quando fazemos a inevitável comparação com o último álbum que tivemos do tipo, o de Michael Jackson, que, sinceramente, não mereceu tamanha falta de bondade.
 
Há quem garanta que "o que foi não volta a ser". E o que resta é somentede tristeza e a certeza de canções atemporais trasmitida por uma sombra de saudade. "Lioness: Hidden Treasures", entretanto, rompe com a tradição de explorar a imagem e obra depois que "o criador" se vai e mostra como se pode construir um álbum feito de retalhos sem que, lá em cima, alguém se envergonhe por isso.

"Back to Black", tido como um dos melhores álbuns da música contemporânea, pode não servir de comparação porque lançado em outras circunstâncias, mas é muito coerente dizer que o conjunto de obras coletadas aqui é digno da artista que foi Amy Winehouse, apesar de seus atropelos comportamentais.

Mark Ronson e Salaam Remi encontraram uma variedade de tons que serve uma cantora sempre emotiva, por vezes mais calorosa como se pode sentir em "Our Day Will Come", ou imbuída de dramatismo como na leitura que se faz da versão inédita de "Will You Still Love Me Tomorrow?", uma das mais belas canções da carreira de Amy.

Para nos emocionar mais ainda, os brasileiros, e lamentar um tanto o fato de ter estado fora do set list de sua turnê por aqui em janeiro deste ano, a divulgada gravação de "Garota de Ipanema" me tirou o fôlego e foi aí que me deu aquele nó na garganta que nenhum álbum post mortem conseguiu ou conseguiria, provavelmente. Sua interpretação certamente está lhe rendendo uma boa a festa no céu com Tom e Vinícius...

Não vale a pena interpretar "Lioness: Hidden Treasures" como o sucessor de "Back to Black" e "Frank", e isso se tem propalado com certa constância não somente por quem o ouve de forma crítica. Em Lioness estão representados diversos momentos da carreira curta mas preciosa de Amy. Quando se ouve o álbum, doi ainda mais saber que ela não está mais entre nós e, irrefutavelmente, pensamos que o que resta é somente aquela sombra de saudade.

Não nego que doi ainda mais por saber que essa lacuna foi ocupada por Adele...

Amy Winehouse
"Lioness: Hidden Treasures"
Island/Universal

sábado, 3 de dezembro de 2011

O Mole Poblano, a iguaria mexicana que me nocalteou

Italo Calvino, o célebre literário italiano, escreveu em uma obra, que provavelmente, a comida mexicana, pelos elaborados sabores, tinha origem obscura.

Talvez, os indígenas ocultavam o gosto da carne, proveniente dos sacrifícios humanos, adereçando-a com muitas especiarias, para oultar seu verdadeiro gosto. A verdade fica para os historiadores, mas o certo é, que a gastronomia mexicana é rica, elaborada e carregada de sabores.

É também, o resultado de uma estranha mestiçagem, principalmente, com a comida espanhola, com seus ingredientes básicos no milho, adorado pelos indígenas, o chilli, (pimentas regionais secas), com mais de 100 variedades dignificando os sabores, e o feijão, ingredientes que se encontra sob diferentes formas em toda comida que por lá se prepara.

A comida é para muitos mexicanos o melhor momento do dia e se compõe de soupa seca, uma espécie de caldo ralo muito temperado, com arroz; um segundo prato que pode ser carne, peixe ou frango, sobremesa e café.

Não pode, de jeito nenhum, abandonar México sem ter experimentado o verdadeiro prato mexicano, o mole poblano, o prato bandeira da cuzinha mexicana que é, na verdade, a base para acompanhar frango, carne de porco, de cordeiro ou mesmo de boi. A receita foi inventada pela freira de um convento que, querendo agradar ao bispo, misturou mais de 30 ingredientes, impressionando-o com o delicioso molho. A preparação é devagar e trabalhosa por ter diversas etapas onde se vão misturando todos os ingredientes que vai até uma pequena barra de chocolate meio-amargo, à amanedoim, tomates, amêndoas, passas, alhos, pimentao, canela, pão, banana etc. E foi ele, exatamente o Mole Poblano o meu vilão...

Já viajei pro alguns lugares e como realmente de tudo. Sou acostumado a comidas codimentadas e gosto do sabor salgado e picante, mas a culinária mexicana, inusitadamente e literalmente, me derrubou. Fiquei acamado no quarto do hotem por um dia inteiro com sintomas que é melhor não comentar...

Mas eu não costumo deixar o inimigo rindo de mim e preparei a minha doce (ou apimentada) vingança. Fui para dentro da cozinha do chef Jésus García (De Cortés), a seu convite, para aprender a fazer o prato. E, mesmo ainda convalescendo, enfiei tudo goela abaixo com muita vontade!

Bom, sobre o mal que me acometeu, você saberá nesse vídeo que preparei para você aprender também e, se tiver cpragem, fazer e comer! Comer muito, porque é muito bom!

Um apetiritivo para aguardar a obra póstuma de Amy Winehouse

Um dos shows da Amy Winehouse foi por mim documentado e editado. Aquele, que dizem os críticos, foi o melhor dela na turnê do Brasil.
Somente agora lembrei de postar, não sei por quê, mas está quase completo. Servirá, pois, como um bom aperitivo para o tão aguardado álbum póstumo que será lançado esta semana!
Embora alguma passagens esteja realmente muito amadora - não se pode exigir muito de um fã apaixonado na turma do gargarejo - tem-se uma boa ideia da presença da saudosa jazzeira no palco.
Agora são só saudades...
Descanse Amy... Por aqui vamos curtindo o que deixou...

 
Parte 1


                                                                          Parte 2

                                                                              Parte 3

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

''Se não nós, quem?"


O ativismo político radical na Alemanha dos anos 60 é o foco da película extraordinária Se não nós, quem?. O tema  político um tanto repetitivo, bem que poderia ser enfadonho. Mas o primeiro longa de ficção do documentarista Andres Veiel, a quem o assunto já interessara no documentário Black box BRD, já é motivo para entramos nas poucas salas que o filme se apresenta de coração e alma abertos – chato isso de termos tão pouco acesso aos filmes de arte. Como diz uma prima minha, deveriam enfiar garganta abaixo como remédio para crianças.
O filme alemão é um retrato da militante do grupo Baader Meinhof, a ativista de nome estranho mas personalidade forte, Gudrun Ensslin, e seu amante obcecado, talvez não pelos mesmíssimos ideiais, Bernward Vesper. Andei lendo que há aproximadamente três anos, em O complexo Baader Meinhof, o cineasta Uli Edel já havia explorado território semelhante, o que poderia complicar a missão de Veiel na sua obra, o que presumo não ter acontecido. O filme é vigoroso em cenas singulares e takes geniais, sabendo explorar o talento de tão bons e desconhecidos atores.
Veiel examina cuidadosamente as relações estabelecidas através das palavras, crenças e ideiais num contexto cultural bastante influenciado pela literatura e movimentos políticos. O roteiro, de tão rigoroso, torna-se cansativo no quarto final da película. Eu saí do Reserva Cultural com uma vontade inimaginável de poder ter dito para o Veiel que quinze minutos cortados faria muito bem àquela obra.


O diretor pontuou a narrativa com trechos de documentários, o que o distancia daquilo que poderia ser um tema cansativo para quem já saturou de ver histórias de ativistas e guerras, nessa união indissolúvel. Além disso, brilhante e emocionnte é a combinação feita à trilha sonora que passou por Bilie Holiday a Rod Stward e famosos hits de época que marcaram muito bem a cronologia do filme.
Participação pequena da atriz Imogen Kogge, que eu nunca tinha visto, não diminuiu seu trabalho virtuoso. Encena de forma emocionante e grandiosa em closes fantásticos. Com a escusas pelas grandes atuações, sem medo de ser clichê, rouba todas as cenas em que atua.
O filme é para quem tem cabeça e veia. Também para quem tem sangue alemão patriota correndo por esta. Um pitada de carinho pelos psicólogos também é certo, a saber por aquela prima que quer enfiar filmes goela abaixo.
Ah, de tão genial, já ia esquecendo de tratar da direção de arte que sinceramente não sei quem assina, mas, talvez pelo brilhantismo, mereça um capítulo só seu. Para quem conhece a Alemanha - e gosta dela - , vivenciar cenários tão bem montados, é simplesmente apaixonante.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

UM SERTÃO VIRANDO MAR *


 
Cruzava a baía de São Marcos por ferry boat, entre Ponta da Espera e Cujupe, pela primeira vez, sem ter a ideia do que realmente me esperava, mas começava ali a minha maior jornada profissional. Iniciava o ciclo de inspeção comandado pelo Corregedor-Geral da Justiça, Antonio Guerreiro Júnior.

Na verdade, o programa, de forma inusitada, tomou proporções maiores do que eu imaginava por um episódio particular. Aquela viagem tinham dois propósitos: iniciar os trabalhos de mutirão da comarca de Pinheiro que era acometida de um aglomerado processual, e a visita do Corregedor às comarcas da Baixada para conhecer in loco a situação física dos prédios dos fóruns e a eficiência na prestação de serviços ao jurisdicionado.
O dia do retorno coincidiu com o término dos trabalhos em Pinheiro, e, não podendo ficar para o encerramento, o Corregedor pediu que eu levasse aos juízes e servidores da comarca suas palavras de agradecimento. Tomado da emoção pelo que presenciei naquela região, confesso que fui audacioso. Fiz um apêndice: ‘O Corregedor, estando muito satisfeito com o que aqui foi realizado, determinou-se a visitar as 110 comarcas do estado para conhecer a realidade do Poder Judiciário e, em parceria com o Tribunal de Justiça, revitalizar a tão carente Justiça de Primeiro Grau’. 

Ai! Retornava sob as águas daquela baía, inspiração de grandes poetas, com um frio raro na barriga, longe de qualquer poesia inspiradora. ‘De onde eu tirei isso, meu Deus?!’. Alguém falara por mim, tinha como certo, querendo me enganar.

“Corregedor, fiz o que determinou, mas tenho que informar que, por minha irresponsabilidade, acrescentei palavras que não eram suas”. “E quais foram essas palavras, meu pai?” – perguntou-me da forma sempre carismática o meu chefe. Fui direto - “falei que irá visitar todas as comarcas do Estado, o que sei ser improvável”. 

Mesmo sabendo que poderia corrigir a minha ousadia, me sentiria muito mal qualquer que fosse o esboço negativo do meu superior, embora estivesse ali o meu verdadeiro anseio de trabalho. “E vamos!”. 

“Como?”. Ufa! O que acabei por esboçar espontaneamente onde não deveria, o chefe mostrou tencionar como meta de gestão, sem a minha exposta consciência, na proporção de minha humilde visão jurídico-administrativa. Sentimentos de alívio e satisfação me deram uma vontade infinda de trabalhar. 

Essa ansiedade não era à toa. Já nas primeiras visitas, realizamos tarefas que eram estrelas aos olhos dos magistrados e servidores. Era gratificante sentir que simples ações tinham excelentes respostas, como a deliberação da retirada de conjuntos enormes de bens inservíveis que encontrávamos no trajeto.

Outras etapas vieram em um planejamento que envolveu todos os setores da Corregedoria, já com a presença da Diretora, Sumaya Heluy. Assessores se uniram e a comitiva contou com técnicos para solucionar problemas eventuais. Projetos como o “Fale Audiência” e “Tele Audiência”, elaborado pela CGJ foram implantados. Também, durante as inspeções, reconheceu-se a urgência de determinação do CNJ para a retirada dos fóruns das armas de fogo apreendidas. As Serventias eram igualmente visitadas e os oficiais instruídos. Foi durante este biênio que fraudes foram detectadas e vários cartórios foram interditados, merecendo ainda mais atenção, contando com a ajuda da Polícia Federal solicitada pelo Corregedor.

A segurança se tornou meta. Quando da visita à comarca de Bequimão, o prédio havia sido invadido dois dias antes de nossa chegada. Tivemos tempo de constatarmos as grades serradas e a toga do magistrado queimada. Em Carutapera, notícias de que a Juíza, gestante, escondeu-se debaixo de um armário para não ser levada por assaltantes. Ali, tive grande emoção. Uma servidora com quase trinta anos de carreira se levantou com os olhos lacrimejados e pediu para dar um abraço no Corregedor. Dizia ela que nunca um Desembargador havia pisado naquela longínqua cidade. Lindo e triste!

Nossa rotina muitas vezes se ateve a estradas esburacadas, chuvas fortes, poeira, calor extremo, manadas gigantes que nos fazia parar, literalmente, por mais de meia hora, como a que encontramos na famosa Estrada do Ouro, sem pavimento; dias sem almoço, hotéis mofados, e poucas horas de sono. Inédito em minha vida, trabalhei em domingos. Por conta da rota e da necessidade de se adequar as visitas ao tempo, houve lugares em que juízes, com boa-vontade inestimável, prepararam todo o seu pessoal para nos receber.

Diante dessa pequena mostra das dificuldades, me pergunto onde estava eu quando proferi aquelas palavras extras em Pinheiro. Seria eu um ilusionista, pensando em ‘garrar o céu com a mão’, como diz o caboclo do sertão? Poderia ter dito o ‘muito obrigado’, resoluto, e aquela noite na estrada isolada entre Alto Parnaíba e Tasso Fragoso com o carro quebrado à 1h00 da manhã talvez jamais estivesse em minha história. Por outro lado, eu me perguntaria: qual o sentido da minha vida profissional? Onde estaria a paixão que eu tenho pelo Direito?

Nesta reta final do mandato do Desembargador Guerreiro Júnior à frente da Corregedoria, sinto-me realizado, ainda que minhas vértebras tenham pulsado em mais de 50 mil quilômetros de estrada. Quem quer que tenha falado por mim naquele dia em Pinheiro, valendo-me do meu teimoso sincretismo, o fez para nos tornarmos, mais que experimentados profissionais, humanos, solidários com o que prega os reais princípios da Ciência Jurídica a atravessar cotidianamente águas revoltas, como aquelas que enfrentei mais de uma vez na baía de São Marcos. 

Prazerosamente, depois da invernada do Maranhão, o mar se torna mais azul e calmo. E se já era tempo de colheita, agora a safra será histórica

                                                                                     Flávio Gomes Assub
                                                                        Analista Judiciário do TJ-MA
                            Assessor-Chefe da Assessoria Especial da
 Corregedoria Geral da Justiça

*Esse artigo foi publicado na coluna Opinião do Jornal
O Estado do Maranhão, domingo, dia 23 de outubro de 2011.
P.S. Nesse post, fotos do próprio autor do texto clicadas durante 
as viagens de inspeçãoe  publicadas no Instagram.